O privilégio de escrever *Quando um leitor confia*
*Quando um leitor confia*
Há algo que aprendi ao longo dessa caminhada: a maior recompensa de um escritor não está em vender um livro, mas em conquistar a confiança de alguém que decide dedicar parte do seu tempo às suas palavras.
Escrever, para mim, deixou de ser apenas uma atividade. Tornou-se uma maneira de viver. Todos os dias acordo com vontade de escrever. Cumpro minhas tarefas, preparo um café e sigo para as páginas que me esperam. Muitas vezes começo pela manhã e só percebo que a madrugada chegou quando o silêncio toma conta da casa. Entre um capítulo e outro, faço pequenas pausas para brincar com minha filha, caminhar pelo jardim, contemplar a natureza ou simplesmente saborear uma xícara de café. São esses instantes que renovam meu coração e dão vida às histórias que ainda estão por nascer.
Ao longo desses anos, compreendi que todo propósito exige escolhas. Faz tempo que não me reúno para jogar com meus amigos como antes. Muitas conversas ficaram para outro momento, e inúmeros pregões no mercado financeiro deram lugar às horas silenciosas diante de uma página em branco. Nunca enxerguei isso como uma perda. O tempo é o bem mais precioso que possuímos, e decidi investi-lo naquilo que acredito poder permanecer além de mim.
Carrego comigo duas frases que moldaram profundamente essa jornada. Meu mentor dizia: "Dedique-se. Semeie, e você colherá." Minha mentora repetia: "Não busque a perfeição. Escreva de forma espontânea. A sua autenticidade já está na escrita." Durante muito tempo, apenas guardei essas palavras. Hoje, tenho o privilégio de compreender o verdadeiro significado delas.
Quando descubro que alguém, em algum lugar do mundo, escolheu ler um dos meus livros — ou confiou em mim a ponto de levar uma série inteira para casa — sinto uma gratidão difícil de traduzir. Em um mundo onde o tempo é tão disputado, alguém decidiu caminhar comigo por algumas horas. Essa confiança vale mais do que qualquer reconhecimento.
Se, em alguma página, uma história conseguiu tocar um coração, despertar uma esperança ou acompanhar alguém em um momento importante da sua caminhada, então cada escolha encontrou o seu verdadeiro sentido.
É por isso que continuo.
Porque livros são feitos de papel e tinta.
Mas uma verdadeira história só existe quando encontra um coração disposto a acolhê-la.
*******Gratidão*******
Por Roberto Ikeda

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